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O fracasso do salário mínimo nacional

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Muita tem sido a discussão em torno do salário mínimo nacional. Os sindicatos lutam pelo seu aumento, o patronato sente-se confortável com a sua manutenção em cenário macroeconómico adverso e o Governo até pretendia a sua descida, segundo palavras do Primeiro- ministro.
 
Ao contrário de outras medidas, Passos Coelho até desejaria que esta medida constasse do memorando da Troika. Atualmente, o salário mínimo em Portugal é cerca de metade da média europeia, o que aproxima mais Portugal dos países em vias de desenvolvimento.

Sempre que se discute a temática dos salários e os seus níveis baixos/altos, surge o argumento da baixa produtividade das empresas e da sua falta de competitividade. Logo, a troca de argumentos para travar o seu aumento é e será sempre uma luta dantesca.

Do meu ponto de vista, e num modelo simplista, a lógica vigente não podia estar mais errada. Quem produz mais deve receber mais do que quem produz menos. Muitos concordarão diretamente com esta premissa, mas quantas empresas conhecem que operacionalizam este conceito? Aqui começa, realmente, o problema.

Na cultura americana, este conceito está amplamente presente e é um fator chave de sucesso. Dou-vos o exemplo dos empregados de mesa, cuja remuneração tem uma componente fixa geralmente baixa, e uma variável que depende de uma percentagem da receita que geram ao patrão. Parece desafiador propor este modelo a um restaurante português, mas a verdade é que, financeiramente, tem mais garantias de sucesso e menor risco associado, já que os empregados partilham os objetivos da empresa. A motivação para se esforçar e gerar valor será potenciada ao máximo todos os dias. O seu sucesso traduzir-se-á num salário maior para si e num aumento do volume de negócios para o seu restaurante.

No caso português, temos o ordenado tabelado ou salário mínimo como norma vigente. O interesse em produzir mais ou gerar valor para o negócio traduzir-se-á em cansaço e num aumento de autoestima e profissionalismo no final de cada dia. O seu final do mês não será mais risonho e terá o bolso tão cheio como o colega que
se esforça bem menos. Porquê fazer mais quando até pode fazer menos? Este exemplo dos empregados de mesa será caso único? Nem pensar.

O salário tabelado é um fator indiciante de um mercado de trabalho pouco dinâmico, pouco transparente e pouco atrativo. Gerará entorpecimento ao tecido humano das empresas que economicamente só têm a perder
com isso.

Cada trabalhador deverá receber o justo valor do contributo que dá à sua organização. Nem deverá ser a mais nem a menos. Se uma organização pagar mais do que o seu justo valor, então teremos negócio e margens a ser destruídos efetivamente, bem como danos colaterais em outros recursos. Se pagarmos menos do que o seu justo valor, então parecerá até um bom contrato para a empresa que explora esse recurso, até ao dia em que se perde esse ativo para mãos alheias.

Quantos gestores ou diretores financeiros já analisaram a produtividade efetiva de cada um dos seus recursos? Seria muito mais eficiente analisar este indicador e reinventar formas de maximizá-lo, mesmo que por vezes isso leve a despedimento de recursos pouco produtivos, em vez que discutir formas de cortar nos gastos com pessoal com régua, esquadro, salário mínimo e outras artimanhas.

Partilhem o risco do negócio com as pessoas da organização. Façam-nas sentir, constantemente, o compromisso e a obrigação de gerar valor, e essencialmente mostrem que elas podem ganhar com isso. Sem este driver, será apenas mais um longo dia de trabalho.
 

Por Ricardo Santos*

*Manager da Baker Tilly
 
http://www.oje.pt/gente-e-negocios/opiniao/opiniao/o-fracasso-do-salario-minimo-nacional
 
 

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